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Maria Filomena Falè Maria Filomena Falè

A Viagem de Alice - A guerra

“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas as cidades, os castelos e, talvez em um momento, sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio ou seguro (…) até Deus, nos tempos e sacrários não está seguro (…)

Pe António Vieira

Há guerra por todo o lado, em todas as frentes.

Palavras que se dizem, que se desdizem, que se contradizem, que se torcem e que se retorcem.

Informação contraditória a vir de todos os lados. Barulho, ruído, confusão.

E chegam os Panamá Papers, as listas dos ricos, os cometem fraudes em nome de bezerros de oiro, os curandeiros da treta a explorar as fragilidades de quem sofre.

E isto, não é guerra?

Mãos que atacam na calada da noite. Dentro de casa. Mulheres atiradas contra a parede, atacadas, silenciadas. Mulheres que dizem que “bateram com a cabeça numa mesa”.

O medo à solta.

E isto, não é guerra?

O Boko Harem que rapta 200 meninas.

O Daesh que rapta 2000 mulheres.

O imperador do reino dos infernos que dança, a alimentar-se de violações e mutilações.

E isto, não é guerra?

A KKK que deita fogo a um negro.

O ISIS que deita fogo a um jornalista, fechado dentro de uma jaula.

Snipers que fuzilam quem passeia numa rua.

Num qualquer país com ditadura, largam-se aos cães os corpos retorcidos dos torturados.

E isto, não é guerra?

O Pe António Vieira escreveu estas palavras inspiradas no século XVII.

Até hoje, ninguém está seguro, nem Deus.

Como cantava o Zeca Afonso: “no chão do medo tombam os vencidos”

A ironia suprema é que não há vencedores.

Tudo o que resta são vencidos, tombados no chão do medo.

… não faz sentido, pois não?...

Maria Filomena Falè