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maria filomena falè maria filomena falè

A viagem de Alice - 0 intolerável

(..) dito isto, põe o pé sobre a tocha, pois a luz e a luxúria são inimigos mortais: o crime, envolto na noite cega, é tanto mais tirânico quanto menos visível. O lobo agarra a sua presa, a pobre cordeira grita, até que a voz se apaga com a sua própria lã branca, os gritos sepultados nas pregas doces dos seus lábios (…) in A Violação de Lucrécia - Shakespeare

A notícia da menina que, no Rio de Janeiro, foi violada por 33 homens deixou-me atónita.

Penso que não há nada que uma mulher mais tema do que a violação.

Porque implica submissão e falta de consentimento.

Uma violação traduz-se na subjugação mais nojenta, na ausência total de qualquer tipo de amor.

Tenho seguido o assunto com atenção e acerca do mesmo há pontos que não posso deixar de focar:

– Já ouvi vozes que gritam que se a menina foi violada é porque “se pôs a jeito” para que tal acontecesse. É esta gente que em nome da moral e dos bons costumes transforma vítimas em responsáveis, de forma vil. Não há comportamento, por mais lascivo que seja que justifique que uma mulher seja violada por um só homem, quanto mais por 33. – Também se levantaram vozes a dizer que o que sucedeu à menina nada mais foi do que o karma a funcionar. Outro argumento vil que desresponsabiliza os responsáveis porque instrumentos de uma força maior que eles (só falta dizer que fizeram um favor à menina...)

Devo ainda acrescentar que, mesmo que a menina tivesse consentido em ter relações sexuais com 33 homens, certamente que não consentiu com a gravação e exposição pública das imagens, em tudo o que é rede social.

O direito à intimidade é um direito fundamental. Por outro lado... tudo o que vai para a net, fica na net, nunca mais se apaga.

Uma violação é um acto de ódio e o ódio tem que ser combatido. Sem pausas.

Não há justificações, nem desculpas. Não pode haver.

Não é com punições como as que dizem que já foram feitas (tortura, castração, execução) aos violadores que actos intoleráveis como este deixam de se praticar.

É com uma mudança de mentalidade, com a consciência aguda que as pessoas estão separadas mas não são separadas.

A essência é una.

Tudo é um.

Maria Filomena Falè