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A viagem de Alice - Os flagelados do vento leste

(…) a nosso favor não houve campanhas de solidariedade (...), as cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos. Somos os flagelados do vento leste. Ovídio Martins

Cabo Verde está prestes a celebrar mais um aniversário, enquanto país independente: o 41º aniversário, no dia 5 de Julho.

Um país constituído por 10 ilhas, que se costumam chamar de “grãozinhos de terra”. Um país feito de mar. Pequeninos pedacinhos de terra, em pleno oceano. O mar é a casa de Cabo Verde.

Um país improvável, que o FMI considerou inviável e acerca do qual declarou que não duraria mais de 3 meses, caso tivesse a ousadia de se tornar independente.

Pois Cabo Verde enfrentou o impossível. E venceu. Nem outra coisa não seria de esperar a flagelados do vento leste, gente forjada no vento e temperada com sal.

Como as ilhas eram desertas, desde a sua génese mais remota que Cabo Verde é uma terra de misturas e de aceitação. Das misturas resultou uma raça que é considerada a mais bonita do mundo e da aceitação resultou bem estar, orgulho e uma liberdade imensa. Todas as cores existem aqui, todos os credos são consentidos.

Por todas as ilhas dança-se, canta-se e faz-se amor quase com desespero. Porque o sol está dentro das veias de toda a gente.

Um país que, actualmente, é feito do trabalho de todos quantos cá vivem, quer tenham nascido aqui, quer tenham vindo de outro lado.

Todos irmanados pelo sopro do vento leste, que teima em flagelar, sem olhar à origem de ninguém.

Sem campanhas de solidariedade Cabo Verde inventou-se.

Traduziu-se nas mornas e no funáná.

Criou uma democracia sólida.

Cometeram-se e cometem-se erros a nível da governação, mas nunca existiu um só governante que não sinta um amor irremediável pelas ilhas. E o amor marca – sempre – a diferença.

Nós – todos – somos flagelados do vento leste. E concretizamos o impossível.

Maria Filomena Falè