Published in Blog
maria filomena fale' maria filomena fale'

A Viagem de Alice - A Bènem

A pobreza não tem barreiras. A pobreza não vive no nevoeiro. A pobreza não é cor de rosa. A pobreza não é indolor. A pobreza não tem uma só face.
Patrícia Carvalho, in jornal “Público”, 14.10.2015

A Bènem existe, não é ficção.

Pertence ao grupo de pessoas que, no Sal, são comummente denominados por “manjacos”, ou seja, africanos do continente.

De uma forma geral são transparentes. Não se olha para eles, não se repara nas feições, não se atenta ao que dizem.

Quase todos se dedicam ao comércio e são bastante insistentes a vender as peças de artesanato que costumam transportar.

São (a larga maioria) pobres. Muito pobres. E a pobreza não é indolor.

Vivem onde calha, muitas das vezes ocupando fogos cujas construções por terminar.

Sem água, sem luz, sem privacidade.

A Bènem existe e é pobre.

Tem uma alegria que é uma bofetada na cara de quem passa e um sorriso capaz de derreter o coração mais emperdernido.

É comerciante e tem uma pequena banca, mesmo ao lado do Chill Out.

Faça calor ou faça vento, de 2ª a Sábado a Bènem está lá.

Vende estatuetas e pulseiras.

É jovem, é dona de uns olhos e de um sorriso fantásticos.

Tem um piercing de ouro na língua.

Veste-se sempre de cores muito vivas e nunca se esquece de pintar as unhas.

Cor de chocolate negro, toda ela é garrida.

Fazer compras à Bènem é um ritual.

É preciso regatear, conversar e vê-la rir.

No final chega-se – sempre – a um acordo e é garantido que ela oferece um pequeno presente.

A primeira vez que ela me ofereceu o presentinho final fiquei surpreendida.

– É normal, é África – foi a pronta resposta.

A pobreza não tem barreiras.

A indiferença que torna os outros transparentes também não.

Maria Filomena Fale'