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A Viagem de Alice - Pode dispensar-me 1€?

O trabalho espanta três males: o vício, a pobreza e o tédio
Voltaire

Uma mulher caminhava numa qualquer capital europeia.

Feliz por estar sol, por ter uns momentos de ócio, por ser amada, por ter um tecto, por estar bem alimentada, por ter o suficiente para o básico e, ainda, para uns pequenos luxos.

Numa rua cruzou-se com um senhor, já não muito jovem, com roupa imaculada de limpeza, embora um bocadinho fora de moda.

O senhor era alto, embora tivesse os ombros curvados. De olhos baixos, dirigiu-se à mulher e disse baixinho:
- Pode dispensar-me 1€?

A voz que pedia era muito baixa e insegura.

A mulher entendeu que o senhor já tinha vivido dias bons, mas que por algum motivo a vida tinha virado a página.

Intuiu que o desemprego lhe tinha batido à porta, talvez porque um rapazola qualquer tivesse sido escolhido para desempenhar o cargo que o senhor tinha executado durante anos; é sabido que, em termos laborais, os mais velhos são corridos para dar lugar aos mais jovens,
Há momentos em que uma clareza e uma compreensão se apossam de uma pessoa e foi
o que a mulher sentiu.

Foi num só momento e entendeu a demissão do senhor, o regresso a casa ainda atordoado, os dias que se começaram a arrastar e a terem um tamanho inaudito, as respostas vãs a anúncios, o dinheiro a acabar, a comida a diminuir, a dignidade atirada pela janela fora.

Até ao momento em que pedir se tornou imperioso.

A mulher entendeu também que pedir causava sofrimento ao senhor, bem patente nos olhos postos no chão, no tom de voz educado e muito baixo.

Por um momento e num momento, ele e ela foram um.

- Pode dispensar-me 1€?
Ela dispensou-lhe bem mais do que 1€.

Sem palavras.

Nem ela disse nada, nem o senhor agradeceu.

Não valia a pena.
(esta história é verídica)

Maria Filomena Fale'