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“Dizer que a ilha do Sal, não tem segurança turística, não condiz com a verdade - Câmara do Turismo

  • Gualberto do Rosário é categórico em dizer que esta temática da segurança turística não é uma coisa específica da ilha, nem do país, pelo que não faz sentido extremar as coisas, visto que o país está a dar os primeiros passos ao nível turístico

Santa Maria – 24 de Outubro – “Quando se fala questões de condições e segurança turística na ilha do Sal, não se deve redimir apenas a cidade de Santa Maria, mas sim, a ilha toda. Não vejo as coisas por este prisma de que o que tem não possui condições, o que interessa ver é se há projetos para melhor o que existe”, defende Gualberto do Rosário, PCA da Câmara de Turismo, ao ser contato pelo Ocean Press, na sequência dos dois últimos incêndios ocorridos na ilha do Sal e que levantou alguma polémica sobre as condições de segurança, sobretudo no que toca ao turismo em Santa Maria.

Papel da Câmara de Turismo, dialogar ou cobrar?

Este online quis saber qual seria o papel da Câmara do Turismo, sendo o Promovedor de Cabo Verde como destino Turístico, diante da preocupação de que a cidade de Santa Maria não dispõe de condições, nem de meios técnicos e humanos para atender situações de emergência, em caso de acidente grave, grande incêndio ou catástrofe.

Em conversa com Gualberto do Rosário este começa por explicar que o papel da Câmara do Turismo, é o que está a desempenhar no momento enquanto parceiro social do Governo. Ou seja, sendo a entidade representativa do setor privado coloca junto das entidades públicas e outros parceiros sociais os problemas gerais do país, que não se restringe apenas aos problemas relacionados com a segurança turística.

"No ano passado sugerimos algumas questões que foram apresentadas ao Governo e que foram depois implementadas, como o salário mínimo, o código laboral. A CT deu uma contribuição fundamental para que estás questões e outras fossem tratadas, algumas até relacionadas com os municípios, como a energia, água, saneamento, alguns projetos circunstantes e sendo que pertencemos aos membros do MCA", enumera, exaltando que a CT prima para o diálogo com os seus parcerios sociais, incluindo o Governo no sentido de criar as melhores condições para o exercício do turismo em Cabo Verde, mas sem exercer um trabalho sindical, visto que esta não é a sua função.

Na lei, conforme reforça ainda Gualberto do Rosário, qualquer decisão do Governo que envolva o turismo, obrigatoriamente tem de ouvir a CT, assentou.

Sal, e as suas fragilidades em termos de segurança turística

No que toca à segurança turística, Gualberto do Rosário é categórico em dizer que esta temática não é uma coisa específica da ilha, nem do país, pelo que não faz sentido extremar as coisas, visto que o país está a dar os primeiros passos ao nível turístico e, hoje nota-se uma evolução que não pode ser ingorada, embora ainda não chegou à perfeição devido ao longo caminho que tem a percorrer.

"Há um caminho enorme a percorrer e, tem que ser realizado nas próprias condições que Cabo Verde oferece. Contudo, temos que ter em conta que determinados domínios da vida, não serão perfeitos e ausentes de problemas em nenhuma parte do mundo. Cabo Verde é um país que oferece um grau de segurança significativo que resulta em grande medida do seu povo e de também das intervenções das autoridades públicas", recordou.

Nisto, reforça o papel das autoridades policiais nas duas maiores ilhas turísticas do país - Sal e Boa Vista, que segundo diz tem aperfeiçoado os seus trabalhos, sem esquecer que isto não constitui uma responsabilidade subjacente apenas a eles.

"Mas, o problema da segurança turística não é apenas da Polícia e há que estar cientes que as outras instituições vêm exercendo o seu papel. Por exemplo cito, a Proteção Civil (PC), onde hoje já tem um diretor que cobre as duas ilhas, no âmbito da própria estruturação do sistema de Proteção Civil de Cabo Verde. Portanto, não é certo dizer-se que não há nada. Há, e está-se a fazer. Efetivamente há um  caminho grande a percorrer, mas dizer que não há nada, não condiz com a verdade", volta a frisar.

Santa Maria, a cidade mais turística da ilha do Sal - que condições oferece aos turístas?

"Quando se fala questões de condições, não se deve redimir apenas a cidade de Santa Maria, mas sim, a ilha toda. Não vejo as coisas pelo prisma de que o que tem não possui condições, o que interessa-me é ver se há projetos e em que ponto vão melhorar o que existe", expressa o responsável da CT.

Entretanto, Do Rosário não esconde que este assunto tem constituído uma preocupação, pois segundo avança, será o tema central do encontro nacional do turismo a realizar em Dezembro. Neste ótica, ainda há poucos meses a CT reuniu-se com o diretor da PC e o Ministro da Admnistração Interna, assim como a Polícia Nacional, onde o assunto também constituiu tema de conversa.

"Posso assegurar é que as entidades públicas estão preocupadas em criar as condições para que haja a melhor condição de segurança turística no país. E mais, vamos realizar o encontro nacional do turismo em Dezembro e este será o tema central do encontro. Vamos trazer a experiência de outros territórios, inclusivamente das Canárias para analisar e comparar com Cabo Verde e assim tirar algumas conclusões", assegurou, apelando a não esquecer que estes domínios são construídos, exemplificando os casos das Canárias e da Madeira.

"As Canárias hoje tem um sistema de segurança turístico que conheço e que diria que é quase perfeito, mas passaram mais de 40 anos a bater com a cabeça na parede até chegar ao modelo atual. Por outro lado, darei outro exemplo, com o que aconteceu recentemente na ilha da Madeira, em Portugal. O incêndio desta natureza não deveria ter avançado da floresta para a cidade destruíndo hotéis de montanha por completo", salienta.

Gualberto do Rosário insiste ainda dizendo que é preciso relativizar as coisas e ponderar, tendo em conta os resultados que estão a ser visíveis.

"Hoje temos um policiamento em Santa Maria que não tínhamos, uma esquadra que não existia, efetivos que fazem um serviço de vigilância na rua que não tínhamos e vai aumentar. Eu diria que estamos em bom caminho", acrescentou.

Entretanto aponta dedo ao papel das Unidades Turísticas e a população nesta matéria?

Segundo, o responsável, aqui entra também o papel da unidades turísticas, no que diz respeito à prevenção. Ou seja, cada unidade turística, assim como a própria população devem segundo o responsável estar preparados na prevenção.

"O risco combate-se na prevenção, sem prejuízo de colocarmos a tónica onde que tem que ser colocada e, em encenar as consequências de eventos como este ou como um acidente de viação. A primeira atitude que temos que ter é agir na prevenção. O que significa que as unidades turísticas têm de ter os planos de combate a incêndio, e os meios para fazer face, inclusive os recursos humanos preparados para enfrentar a primeira ocorrência", acertou.

Os hóteis e restaurantes da ilha possuem esta condições?

Na ótica de Gualberto Do Rosário, vários hotéis têm bocas de incêndios, água disponível, entre outros equipamentos de combate, embora não pode garantir que todos tenham, sobretudo as pequenas hotelarias e bares, ressaltando porém, que não se pode dizer que não se preocupam.

A transversalidade da segurança turística, devem ser previstas e reguladas

Entretanto, as leis do país devem prever e regular estas questões, explica o entrevistado, esaltando o domínio vasto que esta impõe.

"Obviamente que quando o turista procura um destino, é suposto que este tenha garantido a segurança do turística em todos os sentidos. Esta é um domínio vasto, que não se resume apenas a um incêndio. Ela começa no aeroporto de chegada e termina no aeroporto de partida e, abarca domínios como a segurança alimentar, outra questão em que evoluímos significativamente. Veja que o Sal não tinha restaurantes com certificados internacionais e hoje temos 10, alguns com certificado Golden. A Boa Vista não tinha restaurantes qualificados, hoje tem 11. Ou seja são domínios em que estamos a evoluir. As pessoas têm a tendência por focar um ponto, um elemento e depois esquecem-se de todo o complexo à volta da segurança turística", aprofunda.

Em termos de condições saúde

No que toca ao domínio da saúde, o responsável é categórico em dizer que não sabe se justifique, ou não um Posto de Saúde em Santa Maria e, de que nível, visto o que mais importa aqui é se existem condições de prestação de serviços de saúde essenciais e se são acessíveis ao turista ou não.

"Não sou técnico de saúde, mas preocupo-me é que haja condições de prestar cuidados de saúde pelo menos naqueles domínios que o turismo precisa, isto porque falo do turismo e não de toda a comunidade, mas em princípio o que se coloca ao turismo coloca-se aos locais. A questão que se coloca, não é se tem ou não necessidade de haver um hospital em Santa Maria, o que preocupa é se na ilha do Sal há condições de prestação dos cuidados de saúde essenciais e se são acessíveis. Garanto que neste domínio também não podemos dizer que é inexistente. Podemos dizer que o nosso sistema comporta ainda imperfeições, não tem tudo, mas tem. Não podemos dizer que não haja resposta neste domínio porque estávamos todos mortos", desabafa.

Agora, está ao alcance de todos?

Neste lado temos que ver a saúde numa forma global. Temos que ver a saúde pública, onde vamos questionar a qualidade da água, o saneamento, aquilo que normalmente que é a intervenção da Delegacia de Saúde, no combate a epidemias e a endemias particularmente, enfim. E creio que nestes domínios o Sal está bem. Não temos problemas de saúde grave, veja que pode viajar para o país sem tomar vacina, e isto é importante para o turismo, porque não é por acaso que não estamos com Dengue, Zika. Se não temos estes tipos de epidemias em Cabo verde, ou na ilha do Sal é porque tem havido um trabalho de prevenção", recordou, apontando contudo, que há de fato uma necessidade de intervenção nas estruturas de saúde existentes para que haja boas condições de saúde na ilha e no país.

Em jeito de conclusão e preocupação

"A preocupação que a CT deverá ter não se restringe apenas às ilhas turísticas do Sal e Boa Vista, mas sim num parâmetro nacional. Em breve vamos abrir a delegação de São Vicente e Santo Antão, de modo que tenhamos um programa que envolve os domínios todos e estamos a trabalhar no seu aperfeiçoamento e obviamente temos a segurança turística, a qualidade como as nossas prioridades".

AR/Ocean Press - Redação